Sem inspiração para escrever, apesar de ter feito isso mentalmente no velório.
Comecei a pensar sobre velório, convenções, relação com a morte, formas mais “felizes” de conduzir a morte para os que ficam, espiritismo, enfim, um turbilhão de coisas passando pela cabeça.
Falei por várias vezes assim: Mãe, pelo amor de Deus, não quero velório, quero ser cremada! O detalhe é que em Teresina, não há cremação. Mesmo assim, eu quero!!!
Pensar sobre cremação é como quebrar paradigmas. Não haverá caixão, nem um local para visitar meus restos mortais anualmente no dia de finados... Não quero ter minha vida reduzida a um corpo morto num caixão, sendo visitado por pessoas que nem me conhecem, e que guardem de mim aquela imagem final... Quero ser lembrada alegre, sorrindo, irritada, enfim, da forma que cada um queira. Serei pó, para ser jogado em Natal, em Teresina, em qualquer lugar especial para mim.
Mas hoje fiquei matutando mesmo foi sobre: quem criou esses ritos? Por que tem que ser assim? Por que as pessoas velam “o morto” um dia todo antes de enterrar? Por que as pessoas passam horas conversando sobre tudo que é assunto, enquanto uma dúzia de pessoas estão realmente sentindo uma “dor tremenda” da perda? Por que as pessoas olham o corpo inerte como se o morto se sentisse agraciado ou acolhido por isso?
Apesar do meu espírito aguçado para descobrir isso tudo, 01:34 da manhã não estou disposta a consultar o Google. Sei que alguém que gosta de descobrir a origem das coisas faria isso com a maior disposição. Um antropólogo, historiador, jornalista. Tem alguém aí?
Nascer e morrer. E no meio disso, viver. Estou pensando sobre isso. O mais importante está no meio. Está no depois que eu chego e antes que eu morra. O que estou fazendo nesse intervalo? Sou feliz? Amo? Sou amada? Tenho sonhos? Realizo os meus sonhos? Ajudo as pessoas? Tenho amigos?
Me lembrei da historinha que o peruano me contou quando eu estava em Nazca. Fiquei abalada ao saber que meu avô (na época) estava em coma, e ele caridosamente me relatou a história, que não irei detalhar, mas resumir. Nas lápides do cemitério (relatado), ao invés da idade real havia a quantidade de anos felizes vividos. Achei muito gentil e bonita a história, na época até a contei no meu Orkut.
Por que não mudamos o final? Por que ao invés de choro, lamentações, não relembramos todos os momentos felizes com a pessoa que parte? Por que ao invés de TER que mostrar dor, sofrimento, não mostramos felicidade pelos momentos vividos? Por que não compartilhamos os bons momentos, histórias engraçadas, gafes, defeitos (por que não?) da pessoa que está nos deixando?
Gostaria de quebrar esse ritual. Quando eu partir, convido a todos a: sorrir, tomar uma caipirinha em minha homenagem, fazer poemas, chorar de saudade, relembrar doces e alegres momentos comigo. Permito que minha mãe (ela não quer ir antes que eu) conte os meus defeitos, que mostrem até mesmo as fotos que eu não gostaria de ver reveladas. Se a morte for trágica, inesperada, até permito dor, mas por favor, não atrapalhem a minha passagem. Pretendo sentir saudades e aguardar por todos os queridos familiares e amigos do “outro lado”.